Sob o desígnio das chuvas - Ciro Scopel e Caio Portugal

Sob o desígnio das chuvas
*Ciro Scopel e Caio Portugal
Falta pouco para mudar a estação. As chuvas vão cessar, as ruas vão secar, assim como móveis e outros bens que puderam ser salvos das dramáticas enchentes que assolaram várias cidades do País. Só não vai ser possível secar as lágrimas daqueles que perderam entes queridos em deslizamentos ou arrastados por córregos.
E, como todo ano acontece, autoridades e sociedade só voltarão ao assunto na próxima temporada de chuvas.
Porém, não é mais aceitável esperar passivamente pelas tragédias anunciadas. São necessárias medidas corretivas e preventivas para impedir que se repitam.
Primeiramente, é preciso considerar que não se teve nenhuma notícia de desabamentos em loteamentos legalmente constituídos. A formalidade que envolve esses empreendimentos exige que sejam plenamente satisfeitos quesitos referentes à ocupação do solo e à preservação ambiental. Onde ocorrem as tragédias? Nas ocupações irregulares, muitas delas efetuadas por falsos loteadores. Vendem glebas, constroem ou incentivam a autoconstrução em locais de risco ou zonas de mananciais, onde deslizamentos ou inundações são inevitáveis por obra da própria natureza.
Em recente artigo, o geólogo e ex-diretor do Planejamento e Gestão do IPT, Álvaro Rodrigues dos Santos, expõe que "tudo continua se passando como se definitivamente e estupidamente decidíssemos não considerar que nossas ações sobre os terrenos naturais interferem com a natureza geológica viva, que tem história, leis, comportamentos e processos dinâmicos próprios".
Defende que "não há uma questão técnica sequer relacionada ao problema que já não tenha sido estudada e perfeitamente equacionada pela Engenharia Geotécnica e pela Geologia de Engenharia brasileiras, com suas soluções resolvidas e disponibilizadas, tanto no âmbito da abordagem preventiva como da corretiva." Se tecnicamente estamos respaldados, por que os erros permanecem? Além do fator técnico, há o aspecto político-social-econômico: as pessoas precisam morar e as famílias menos favorecidas moram como podem e onde dá. E a saída definitiva é o lote urbanizado.
É preciso produzir loteamentos populares, realizados por empresas formais, dentro da mais absoluta legalidade.
Este é o grande desafio que a sociedade tem de enfrentar.
Todavia, são necessárias algumas providências.
Cabe rever exigências elitistas e até mesmo incongruentes das legislações federal, estaduais e municipais.
Ainda é imprescindível haver verdadeiras parcerias entre os setores público e privado, em especial no que diz respeito à infraestrutura básica. Finalmente, é fundamental o financiamento para produção e aquisição de lotes. Raras são as linhas de crédito para esse mercado. Mais estranho ainda foi o setor de loteamentos não ser incluído no programa Minha Casa, Minha Vida, proporcionando acesso subsidiado às famílias de baixíssima renda.
Enquanto não houver políticas consistentes para a oferta de lotes urbanizados será difícil, se não impossível, remover pessoas de áreas de risco ou do entorno de mananciais. Ficaremos sob o desígnio das chuvas. Afinal, ainda não se inventou lei que obrigue a parar de chover. E vamos voltar ao tema, nos próximos temporais.
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Se tecnicamente estamos respaldados, por que os erros permanecem?
Além do fator técnico, há o aspecto político, social e econômico da questão.
*vice-presidentes de Sustentabilidade e de Desenvolvimento Sustentável do Secovi-São Paulo
Fonte: Brasil Econômico/BR (26 de abril de 2010)



