Opinião dos Associados

O projeto como indutor da inovação


João Alberto Viol, presidente do Sinaenco

Como ocorre a inovação em obras públicas? Essa foi a pergunta que o Sinaenco se impôs ao assumir o projeto Inovações nas Obras Públicas no âmbito do PIT – Programa Inovação Tecnológica, iniciativa da CBIC que busca estudar, analisar e definir diretrizes para o desenvolvimento, difusão e avaliação de inovações tecnológicas na construção civil brasileira. Já o objetivo específico do projeto do Sinaenco é o de propor medidas para a promoção de inovações através das compras governamentais. Como produtos, pretende-se chegar a dois modelos de editais: um para contratação de projetos e outro para contratação de obras.

Antes de responder essa questão, que é a essência do projeto, foram necessários debates aprofundados para voltar a algo aparentemente simples: a definição de inovação, conceito ainda longe de gerar consenso nas várias instâncias que o utilizam.

Seria possível pensar que toda obra pronta, sendo nova e tendo sido desenvolvida sob condições únicas, seja pelos elementos físicos em jogo, seja pela finalidade pretendida, traria também uma inovação. Mas além de, com essa afirmação, corrermos o risco de, ao simplificar o conceito, banalizá-lo, é preciso reconhecer que, diferentemente dos processos e produtos industriais, a inovação em obras públicas tem como foco a solução de arquitetura e engenharia para responder a um desafio concreto. Toda obra será inovadora, então, quando o desafio for novo. É nele que reside o germe que fomenta a inovação. Ora, nos tempos atuais, de alterações climáticas, crises de abastecimentos de água e energia, escassez de recursos e outros fatos que impõem mudanças em nossos hábitos e práticas, o que,  senão a preocupação com a sustentabilidade, seria o grande desafio a ser enfrentado, possibilitando o aparecimento de soluções inovadoras?

Tendo, portanto, percorrido esse caminho e adotado a sustentabilidade ambiental como desafio gerador ou promotor das inovações, conceito esse que permite critérios internacionais passíveis de mensuração, o Sinaenco realizou, como desdobramento de seu projeto no PIT, o Workshop Inovação para Sustentabilidade em Obras Públicas, que aconteceu  em São Paulo, em 24 de fevereiro último.

O objetivo do workshop foi o de apresentar, discutir e colher sugestões para uma proposta que resultasse em mecanismos de incentivo de inovação para a sustentabilidade em contratações públicas de projeto, gerenciamento e obra. Ou seja, pretendíamos dar o primeiro passo no sentido de definir modelos de edital de contratação para o governo que contivessem indicadores objetivos para pontuar as inovações voltadas para a sustentabilidade. Essas ideias pressupõem o seguinte entendimento: o ente público é o grande responsável pela inovação, pelo seu poder impulsionador, como o grande contratante e, assim, o principal indutor do estímulo à inovação como fator de desenvolvimento do país. Se as inovações devem ser realizadas pelas empresas privadas contratadas pelos órgãos públicos, são eles que, definindo claramente os parâmetros da obra sustentável, seus critérios e requisitos, e estimulando a pesquisa via justa remuneração, impulsionam a inovação. Para isso devem buscar as parcerias com a academia e com os fornecedores.

Para o ente público, que tem um programa continuado de obras, a inovação não pode se restringir à obra em execução, mas à sua aplicação nas obras subsequentes. Esse deve ser o principal objetivo do investimento na inovação.

Durante o evento, os grupos trabalharam por temas – rodovias, obras metroferroviárias e saneamento – e, além de identificarem aspectos pontuais que resultam num empreendimento sustentável, como meios e técnicas para redução da emissão de gases de efeito-estufa, preservação de água potável, uso de fontes alternativas de energia e de materiais apropriados, se debruçaram sobre a questão formulada no início do nosso trabalho no PIT: onde começa a inovação em obras públicas?

A resposta unânime é que a inovação, devidamente incentivada pelos órgãos públicos, decorre do projeto de arquitetura e de engenharia. Se o projeto é o elemento que define os materiais, prazos, custos e todas as etapas de uma obra; se é dele a concepção, o conceito do empreendimento; se cabe ao projeto compatibilizar a intervenção física e a questão ambiental, trabalhando para a conservação do meio e a mitigação de impactos; se é na fase de projeto que se concebe o DNA de qualquer empreendimento, é também ele que carrega o potencial inovador de uma obra. Assim, se o projeto, arquitetônico e de engenharia, não prevê técnicas, materiais, métodos ou processos inovadores, dificilmente resultará num empreendimento inovador.

Se antes de uma boa obra existe sempre um bom projeto, é preciso acrescer ao já tradicional lema do Sinaenco que uma obra inovadora é formulada pelo projetista.

É seguindo essa linha que o Sinaenco dará continuidade aos seus trabalhos no âmbito do PIT, buscando oferecer uma contribuição efetiva para um futuro de obras sustentáveis!