Alhos e bugalhos

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19/07/2011

 

Alhos e bugalhos

Reinaldo B. Leiria*

Corre na Internet comparação entre a grandiosa ponte da baía de Jiaodhou, que  liga o porto de Qingdao à ilha de Huangdao, na China, recentemente inaugurada, construída em quatro anos, com 42km de extensão e custo equivalente a R$ 2,4 bilhões, com a nova ponte a ser construída sobre o Rio Guaíba, com 2,9km de extensão e custo orçado de R$ 1,16 bilhões. Sem pretender justificar possíveis malversações do dinheiro público, que, no Brasil, sabe-se que existem, e sem desmerecer a capacidade de realização da China, que é patente, quero chamar atenção para alguns fatores que não permitem uma adequada comparação entre a grande ponte da China e a nossa tão esperada nova ponte do Guaíba:


1.    Não há comparação entre a política trabalhista chinesa, que se diz ser quase escravagista, e a política trabalhista brasileira, paternalista, em que as Leis Sociais mais do que duplicam o custo direto da mão de obra;

2.    não há comparação entre os regimes tributários de ambos os países, sabendo-se, como se sabe, que a carga tributária do Brasil é uma das mais elevadas do mundo, também, praticamente, duplicando o custo dos materiais e equipamentos empregados nas obras;

3.    não há comparação entre os custos financeiros nos dois países, sabendo-se, como se sabe, que no Brasil praticam-se os mais elevados juros do mundo;

4.    não se conhecem os critérios de apropriação dos custos da portentosa obra chinesa, mas, somente para exemplificar, o Exército Brasileiro, quando executa obras de Engenharia, apresenta custos muito inferiores aos praticados pela iniciativa privada, quando se sabe que não são apropriados por ele da mesma forma como o são pela iniciativa privada os custos operacionais de mão de obra, materiais e equipamentos;

5.    não se conhecem as condições de fundações da obra chinesa, mas se sabe que no Delta do Guaíba as estacas das pontes nele já construídas atingem 40 a 50 metros de profundidade, o que pode representar 40 a 50 por cento do custo da obra.

Enfim, são somente alguns dados para dizer que não se pode comparar abacaxi com banana, nem alhos com bugalhos. Pode até haver majoração de preços no orçamento da nova Ponte do Guaíba, mas, para comprovar a impropriedade da comparação feita entre as duas obras, a chinesa e a brasileira, basta atentar para a conclusão a que chega a mesma de que uma ponte de 2,9km de extensão, com fundações que devem chegar a 50m de profundidade, possa ser executada em 102 dias, ou seja, três meses e doze dias.

*Membro do Conselho Deliberativo da Sociedade de Engenharia/RS.

Artigo publicado no último dia 15 de julho, no Jornal do Comércio, de Porto Alegre,

 



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