Setor da construção muda o perfil dos seus trabalhadores e está perto de erradicar o analfabetismo
No próximo dia 8 de setembro comemora-se o Dia Internacional da Alfabetização. A construção civil, que sempre foi vista como um setor com alto índice de analfabetismo, tem se mobilizado para mudar essa realidade. Empresários e entidades ligadas ao segmento têm promovido, há alguns anos, em todo o País, programas de alfabetização e aperfeiçoamento educacional como forma de reduzir esse cenário histórico da mão de obra empregada nos canteiros.
Segundo dados da Relação Anual de Informações Sociais (RAIS) do Ministério do Trabalho e Emprego, o percentual de analfabetos no setor da construção civil diminuiu mais de 60% nos últimos dez anos. No ano 2000, o número de trabalhadores analfabetos era de 29 mil em um universo de 1,1 milhão, ou seja, 3%. Já em 2009 (último dado da série histórica da RAIS), cerca de 23 mil trabalhadores, num total de 2,2 milhões, que não sabiam ler nem escrever, o que representava 1% do universo de operários da construção.
A mobilização do setor também tem conseguido elevar o nível de escolaridade dos trabalhadores. No ano 2000, apenas 124 mil empregados da construção haviam concluído o ensino médio. Dez anos depois, esse número é 4,5 vezes maior, o que representa um número de 561 mil trabalhadores com ensino médio completo. Ao analisar as informações da RAIS, percebe-se que, ano a ano, a escolaridade dos trabalhadores vem aumentando em virtude das ações promovidas pelo setor e, claro, pelo empenho e disposição dos colaboradores da construção civil em estudar.
Para o presidente da Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC), Paulo Safady Simão, a modernização do setor exige trabalhadores mais qualificados, com um novo perfil e que sejam capazes de assimilar as novas técnicas construtivas. “É necessário erradicar o analfabetismo e elevar a escolaridade dos nossos trabalhadores. Desse modo, contribuiremos para a melhoria da qualidade de vida dos empregados, para a redução do número de acidentes, elevando a eficiência do trabalho e proporcionando uma redução de desperdícios e perdas nos canteiros de obras”, comenta Paulo Simão.
Programas
Em diversas cidades brasileiras foram criadas salas de aula dentro dos canteiros de obras para a alfabetização e elevação da escolaridade dos trabalhadores. O Rio de Janeiro foi pioneiro neste tipo de iniciativa. Em 1990, o Sindicato da Indústria da Construção Civil (Sinduscon-Rio) lançou o projeto Alfabetizar é Construir, destinado à educação do trabalhador.
Com orientação educacional do Serviço Social da Indústria (SESI) e coordenação da educadora Célia Macieira, o projeto busca motivar os funcionários para a alfabetização, a qualificação profissional e o exercício da cidadania. Segundo Macieira, que também faz parte do Departamento de Relações Institucionais do Sinduscon-Rio, o Alfabetizar é Construir possui metodologia própria, ou seja, a didática adotada é adequada, ligando o aprendizado ao cotidiano do trabalhador. “Já está comprovado que esta didática é a melhor possível”, explica ela, afirmando que o projeto é um investimento válido que significa um passo decisivo para que a Indústria da Construção se torne mais produtiva e qualificada. “Mais de 12 mil pessoas já passaram pelas salas de aula desde o início do projeto”, conta.
Em 2008, o Sinduscon-CE também construiu em parceria com o SESI-CE uma grande obra: o Projeto Educação na Construção, que desenvolveu especialmente para os canteiros de obras três oficinas de educação continuada (Biblioteca itinerante, Oficina de leitura e de Matemática). Este ano, o sindicato implantou uma nova oficina - Construção Virtual, que oferece aos operários a oportunidade de adquirir conhecimentos básicos de leitura, projeção e construção da planta baixa de um imóvel usando os recursos do BrOffice Draw. “Além de possibilitar que o operário passe a compreender as plantas e projetos, aprimorando mais um conhecimento referente à sua profissão, a oficina promove também maior familiaridade do manuseio da informática”, afirma a vice-presidente de sustentabilidade do Sinduscon-CE, Paula Frota.
O projeto deu tão certo no estado do Ceará que o Fórum de Ação Social e Cidadania (FASC) da Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC) resolveu adaptá-lo e disseminar para outros estados. Para a presidente do FASC, Maria Helena Mauad, a implantação do projeto Educação na Construção foi de grande satisfação para o Fórum. “Conseguimos perceber a importância e aceitação que foi para os operários da Construção. A inclusão deu-se não só como cidadão, mas acima de tudo na própria família, onde puderam trocar ideias e conhecimentos com os próprios filhos”, comenta Mauad, acrescentando que tem certeza que, seguindo este caminho, é possível conseguir o resgate profissional e pessoal destes operários.
Outro sindicato que se preocupa com a questão educacional é o Sinduscon de São Paulo. Em agosto passado, em parceria com o SESI-SP, o sindicato lançou o Programa de Elevação de Escolaridade, com objetivo de elevar a escolaridade dos trabalhadores da construção civil referente aos primeiros anos do ensino fundamental (1ª a 4ª séries) e aperfeiçoar seus conhecimentos relativos à Língua Portuguesa e Matemática, no que diz respeito a todas as atividades sociais nas quais eles estão inseridos. “O programa ajudará o trabalhador a entender melhor seu papel na sociedade e melhorar a comunicação com os companheiros”, afirma Maristela Honda, vice-presidente de Responsabilidade Social do Sinduscon-SP.
O Serviço Social da Construção Civil do Distrito Federal (Seconci-DF) também se preocupa com a alfabetização e escolaridade dos trabalhadores do setor. Prova disso é que em 1991 iniciou o projeto Alfabetização e Cidadania. O projeto cresceu e foi além da alfabetização dos operários. Em 2000, passou a atender o primeiro segmento do Ensino Fundamental (1ª a 4ª série) e, dois anos depois, o segundo segmento (5ª a 8ª série). “É muito importante esse trabalho, pois é uma forma de resgatar a cidadania do aluno”, afirma o gerente de alfabetização e capacitação do Seconci-DF, Geraldo Henrique Gomes.
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